Ciência na rodovia BR-319: Estudo mostra as similaridades da BR-319 com outras regiões de fronteira agrícola

Um estudo relativo à dissertação de mestrado da pesquisadora Carolle Alarcon Eichmann investigou os principais fatores que afetam a mudança de uso da terra ao longo da BR-319.

A pesquisadora partiu do princípio de que características locais (origem e composição da família, histórico de migração e níveis educacionais, entre outros) e regionais (acesso à estrada e a políticas governamentais, como créditos e assistência técnica) interagem afetando as estratégias agrícolas das famílias, o que resulta em uma série de mudanças no uso da terra com consequências diretas na paisagem.

Comparando os resultados da BR-319 com estudos anteriores, os dados mostram que os colonos da BR-319 possuem muitas semelhanças com outras áreas de fronteira, como a rodovia Transamazônica, no Estado do Pará e Apuí, ao sul do Estado do Amazonas: há uma tendência para a consolidação de famílias jovens, com um elevado número de homens, baixos níveis de escolaridade e experiência anterior com agricultura. Além disso, o tamanho médio das famílias é análogo ao de outras áreas de fronteira, assim como os períodos de residência em outras áreas longe de seus locais de nascimento antes da migração final para a BR-319. Bem como a existência de uma rede que transmite informações sobre a terra disponível, atraindo pessoas e estimulando a migração.

As principais fontes de renda ao longo da BR-319 são a transferência de renda por parte do governo (como, por exemplo, o Bolsa Família) e empregos não-agrícolas, o que também é comparável com outras áreas. A diversificação da renda com atividades fora da fazenda, que parece ser uma tendência em regiões de fronteira, também se repete na região da BR-319. Também é típica a baixa dependência de renda proveniente da atividade agrícola, a baixa porcentagem das famílias que recebem assistência técnica e a tendência para a acumulação de terras. Como em outras regiões, há evidência de especulação de terras e de que o maior impulsionador do desmatamento é o estabelecimento de pastagens. Além disso, a fraca governança e o caos na regularização fundiária observados no contexto da BR-319 é uma característica comum em outras fronteiras da Amazônia.

No entanto, a origens dos colonos, bem como os regimes iniciais de assentamento e posse da terra, apresentam dissimilaridades com regiões de fronteira mais antigas, ainda que se assemelhem aos resultados da região de Apuí, na parte sul do Estado do Amazonas. Há uma indicação de que, nessa nova área de fronteira, os colonos não provem mais da região Nordeste como antes, mas sim de fluxos internos dentro da própria região Norte e também de migrantes da região sul. Contudo, a BR-319 apresenta uma característica singular: a falta de acesso ao crédito, algo único na região.

Clique aqui para ler a dissertação completa em inglês.

A dissertação foi conduzida junto a Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, com orientação do prof. Jürgen Pretzsch e com co-orientação do Dr. Philip Fearnside do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A realização do campo contou com o apoio do Idesam e da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (SEMA).

[Imagem: Carolle Alarcon]